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"...Enquanto ensinarmos que o mundo é um lugar a ser evitado, que as mazelas humanas são fruto da ausência de Deus, que Deus não ouve os pecadores, que só a igreja evangélica é que detém os "diretos autorais" da salvação, que ser forte e inabalável é sinônimo de fé e que ser pecador é ser inimigo de Deus então ainda não entendemos o plano da salvação e o evangelho de cristo rebaixado apenas á mais uma religião...."
"Sequencia de vídeos diários com a leitura do Novo Testamento"

quinta-feira, 14 de março de 2013

Lâmpadas e inteligências

Por Rubem Alves

É sempre assim: os pensamentos que eu penso de maneira deliberada, metódica e consciente são sempre comuns e banais. Eles nunca me surpreendem. Os pensamentos que me surpreendem são aqueles que aparecem repentinamente, sem que eu os tivesse chamado. Esses pensamentos são livres, vem quando querem, e só aparecem nos momentos de vagabundagem. 

Pois, num desses momentos de vagabundagem, um pensamento me apareceu que fez uma ligação metafórica entre lâmpadas e inteligências que nunca me havia passado pela cabeça. Tratei, então, de seguir a trilha. 

As lâmpadas servem para iluminar. Para isso são dotadas de potências de iluminação diferentes. Há lâmpadas de 60 watts, de 100 watts, de 150 watts, etc. Qual é a melhor lâmpada? Parece que as de 150 watts são as melhores porque iluminam mais. Também as inteligências servem para iluminar. Tanto assim que se diz “tive uma ideia luminosa!” E nos gibis, para dizer que um personagem teve uma boa ideia o desenhista desenha uma lâmpada acesa sobre a sua cabeça. E também as inteligências, à semelhança das lâmpadas, têm potências diferentes. 

Os psicólogos inventaram testes para atribuir números às inteligências. A esses números deram o nome de QI, coeficiente de inteligência. Segundo as mensurações dos psicólogos há QIs de 100, de 150, de 200... Ah! Uma pessoa com QI 200 deve ser maravilhosa! Porque, como todo mundo sabe, inteligência é coisa muito boa. Todo pai quer ter filho inteligente. Mas as lâmpadas não são objetos de contemplação. Não se fica olhando para elas. Olhamos para aquilo que elas iluminam. Uma lâmpada de 150 watts pode iluminar o rosto contorcido de um homem numa câmara de torturas. E uma lâmpada de 60 watts pode iluminar uma mãe dando de mamar ao filho. As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam. 

Há inteligências de QI 200 que só iluminam esgotos e cemitérios. E como ficam bem iluminados os esgotos e os cemitérios! E há inteligências modestas, como se fossem nada mais que a chama de uma vela - que iluminam o rosto de crianças e jardins! A inteligência pode estar a serviço da morte ou da vida. E a inteligência, pobrezinha, não tem o poder para decidir o que iluminar. Ela é mandada. Só lhe compete obedecer. As ordens vêm de outro lugar. Do coração. Se o coração tem gostos suínos, a inteligência iluminará chiqueiros. Se o coração gosta de crianças e jardins, a inteligência iluminará crianças e jardins. Essa é a razão por que é mais importante educar o coração do que fazer musculação na inteligência. Eu prefiro as inteligências que iluminam a vida, por modestas que sejam.

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Vi esse texto no podcast abaixo, de Luciano Pires -  Café Brasil


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