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"...Enquanto ensinarmos que o mundo é um lugar a ser evitado, que as mazelas humanas são fruto da ausência de Deus, que Deus não ouve os pecadores, que só a igreja evangélica é que detém os "diretos autorais" da salvação, que ser forte e inabalável é sinônimo de fé e que ser pecador é ser inimigo de Deus então ainda não entendemos o plano da salvação e o evangelho de cristo rebaixado apenas á mais uma religião...."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Marcha Para Jesus: Um show de falácias e hipocrisia


Autor: André Tadeu de Oliveira
Eli Vieira, presidente da Lihs, enviou umlink bastante interessante. Diz respeito a um blog evangélico que narra agressões ocorridas contra militantes que protestavam na última Marcha Para Jesus, realizada no dia 23 de Junho, nas ruas da capital paulista.
Não devemos nos espantar com esta notícia. Religiosos truculentos sempre se destacaram por um comportamento agressivo, violento e intolerante. Um breve passeio pela história da cristandade é capaz de comprovar essa deprimente realidade.
Contudo, não gostaria de me ater a esta questão. Penso que uma análise mais profunda a respeito da Marcha Para Jesus tornou-se imperiosa.
Antes de ser um cristão evangélico, pauto minha vida de acordo com os valores democráticos. Sou completamente favorável à livre manifestação de qualquer grupo, desde que não promova ódio, intolerância ou degenere em comportamentos violentos. Feita tal ressalva, afirmo que os grupos evangélicos responsáveis pela organização da Marcha Para Jesus possuem pleno direito de organizá-la. O mesmo direito deveria ser estendido a outros segmentos. Budistas poderiam marchar por Sidarta. Muçulmanos caminhariam por Maomé. Judeus fariam extensas procissões em louvor a Moisés. E os ateus e agnósticos? Quem sabe uma procissão em homenagem ao BULE VOADOR, como foi tentado por grupos laicistas espanhóis?
Não quero que meus queridos irmãos na fé saiam pela web dizendo que sou um apóstata, andando de braços dados com ateus “ímpios” e malvados, contra a liberdade da se marchar por Jesus. Contudo, gostaria de comentar algumas falácias na ideologia por trás da Marcha Para Jesus.
1- Hipocrisia e incoerência
A primeira Marcha Para Jesus aconteceu na década de 80 em solo britânico. No Brasil, sempre esteve vinculada à Igreja Apostólica Renascer em Cristo, fundada pelo casal Hernandez. Não apenas fundada, mas de propriedade dos mesmos.
Acho que não é necessário citar a ficha corrida do referido casal. Réus confessos em solo norte-americano, respondem por intermináveis processos na justiça brasileira. Acredito que o histórico dos líderes desta denominação neopentecostal afaste, obrigatoriamente, qualquer pessoa sã e honesta do simples convívio com a famosa dupla gospel. Assim, torna-se muito complicado participar de um evento claramente identificado com um determinado grupo e não se tornar cúmplice, mesmo que de forma passiva, dos atos cometidos pelo mesmo. Portanto, uma marcha que busca sua validação nos ensinamentos de Jesus Cristo jamais poderia ser encabeçada por uma liderança tão nefasta. Tudo não passa da mais suja hipocrisia.
Outro fator bastante presente na ideologia formadora da marcha é sua incoerência. Uma análise superficial poderia transmitir a impressão de que se trata de um movimento inovador, moderno e libertário. Afinal, a grande massa presente no evento é formada por jovens. A linguagem utilizada pelos líderes é moderna, desvinculada do convencional discurso religioso.
Os vários grupos musicais fogem do chamado clássico sacro, ou até mesmo dos tradicionais hinos contidos nos vários hinários protestantes brasileiros. Tudo é alegre, direcionado a um público jovem e antenado. Rock, pop, pagode, axé e até funk embalam os jovens que marcham por Jesus. Mas essa linguagem moderna esconde um discurso tão conservador como aquele proferido em uma típica igreja batista texana, com a vantagem de que os batistas texanos não mascaram seu conservadorismo, ao contrário dos teens que marcham por Jesus. Além da clara plataforma homofóbica, representada pelo discurso monolítico do senhor Silas Malafaia, a análise de algumas músicas entoadas por certas bandas comprova essa incoerência moralista de forma clara. A “Banda do P.A”, formada por integrantes do Ministério de Jovens da Renascer em Cristo, tem uma música intitulada “ Quem ama espera”. Creio que não é necessário transcrever o conteúdo da música. Trata-se de uma ode à virgindade pré-nupcial, refletindo mais o moralismo repressor agostiniano do que o tradicional conceito judaico a respeito da naturalidade de uma vida sexualmente feliz. Pode-se notar que a incoerência é outra característica da Marcha Para Jesus.
2- Evento mercadológico
O forte da Marcha Para Jesus não é a marcha em si, mas o grande show que tem início logo no alvorecer da tarde. Entre um discurso e outro de vários líderes evangélicos, várias bandas de música gospel passam pelo grande palco montado em uma importante praça da zona norte de São Paulo.
Geralmente são grupos vinculados à Igreja Renascer ou a grandes gravadoras do mercado fonográfico evangélico. Apresentar-se na Marcha transformou-se em uma versão crente do Rock In Rio, garantindo aos conjuntos contratos bastante rentáveis e popularidade diante de um público consumidor ávido por esse tipo de música.
Não há espaço para a música evangélica alternativa, desvinculada dos grandes grupos mercadológicos. Muito menos é aberto espaço para grupos seculares que possuam letras belas e nobres. Afinal, tal música não passa de “música do mundo”, devendo ser evitada por crentes fiéis. A marcha tornou-se o principal evento das ricas gravadoras de música gospel do Brasil.
3- Falácia histórica
John Dominic Crossan e Marcus Borg são dois grandes especialistas no estudo do Jesus Histórico. Integrantes do “Jesus Seminary”, projeto que reúne historiadores, cientistas da religião, teólogos e exegetas, estão longe da linha ortodoxa do cristianismo. Em seu livro “A Última Semana – Um relato detalhado dos dias finais de Jesus” é avaliada, de forma histórico-crítica, a última semana de vida de Jesus.
Segundo os dois estudiosos norte-americanos, é basicamente histórica a conhecida “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”, base para o chamado Domingo de Ramos, data que inicia a Semana Santa no calendário litúrgico cristão. Poderíamos chamar este acontecimento como “A Marcha de Jesus”. Mas o que fez Jesus ao marchar para Jerusalém, capital política, econômica e religiosa do povo hebreu ? Afrontou o status quo de uma religiosidade ligada de forma visceral ao estado! Sua revolta, expulsando os cambistas do templo e libertando os pombos que seriam oferecidos como sacrifício para Javé, afrontou a base econômica do templo de Jerusalém. Foi um protesto contra uma situação de opressão sócio-econômica abençoada pela religião oficial. Protesto que custou sua vida.
Agora, comparemos com a moderna Marcha Para Jesus. Durante os anos em que foi realizada em solo brasileiro, nunca nenhum protesto de cunho marcantemente social ocorreu! Nenhuma manifestação condenando mazelas como: racismo, machismo, elevada concentração de terra, analfabetismo, má distribuição de renda. Nada, absolutamente nada! Ao contrário de Jesus, que levantou sua voz contra uma religião que se aliou com o poder explorador romano, os organizadores da Marcha Para Jesus nunca teceram uma crítica pertinente à situação de miséria vivenciada por parcela substancial do povo brasileiro.
Contudo, na edição deste ano, defenderam uma teocracia gospel, criticando a acertada decisão do STF, a respeito da validação das uniões homoafetivas. Afinal, mesmo que não se concorde com o comportamento homossexual, nenhum evangélico deve empurrar suas convicções para todos os segmentos da sociedade brasileira. Não bastando, o discurso homofóbico foi corrente durante todo o evento. Ao contrário da marcha de Jesus, a Marcha Para Jesus não afrontou uma sociedade injusta e preconceituosa, mas aliou-se a ela.
4- Falso Ecumenismo
Importantes lideranças evangélicas, representando várias denominações, estavam presentes na última edição da Marcha Para Jesus. Uma análise superficial pode passar a impressão de se tratar de um movimento ecumênico, onde as divergências existentes entre os diversos grupos cristãos são deixadas de lado. Ledo engano. No fundo, não há espírito ecumênico nesse evento.
Ecumenismo, propriamente dito, engloba todos os grupos reconhecidamente cristãos, inclusive católico-romanos e ortodoxos orientais. Na Marcha, estes grupos não estão presentes e sequer são reconhecidos como cristãos por boa parte dos participantes do evento. Silas Malafaia, pastor assembleiano dissidente, que desvinculou sua igreja local da Convenção Geral das Assembléias de Deus e fundou um ministério próprio, obviamente sob seu total controle, nunca escondeu o já velho e surrado discurso anticatólico. Vários debates apologéticos contra clérigos romanos estão disponíveis na internet. Contudo, a fim de encorpar sua nova neurose patológica, a de combater os direitos legítimos de uma minoria, Malafaia vem tecendo sucessivos elogios ao catolicismo-romano, visando angariar o apoio dos setores conservadores da ICAR. Pura hipocrisia.
Marcelo Crivella, importante líder da Igreja Universal do Reino de Deus e influente senador pelo estado do Rio de Janeiro, também demonstra o caráter falso desse suposto ecumenismo. Sua denominação é reconhecidamente uma das mais fechadas no que tange ao diálogo com outras confissões evangélicas. A IURD não busca diálogo e parceria com outras denominações, pois fiel à lógica de mercado, tem como meta o seu próprio crescimento. Mais membros, mais dinheiro em caixa. E Crivella se destacou na última marcha!
Não bastando, convém lembrar que históricos grupos ligados ao ecumenismo cristão nunca tiveram nenhuma participação na Marcha. Organizações como o Conselho Mundial de Igrejas ( CMI), Conselho Latino-Americano de Igrejas ( CLAI), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs ( CONIC), Coordenadoria Ecumênica de Serviço ( CESE) e a novata Aliança Cristã Evangélica do Brasil não possuem nenhuma ligação com o evento. O mesmo pode ser dito sobre igrejas que possuem uma trajetória reconhecidamente ecumênica: Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Metodista, Igreja Cristã Reformada e as várias igrejas ortodoxas étnicas presentes em nosso país.
Todas passam bem longe da Marcha Para Jesus!
Encerrando a questão do falso ecumenismo propagado pelos organizadores da Marcha, há outro ponto que deve ser abordado. O moderno movimento ecumênico nunca esteve desvinculado de questões sociais. O Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 300 igrejas protestantes, anglicanas e ortodoxas ao redor do mundo, sempre se destacou por seu ativismo social identificado com posturas claramente progressistas. Fundado em 1948, o CMI foi importantíssimo na luta contra o apartheid sul-africano, no processo de pacificação e reconstrução de Ruanda, na luta contra ditaduras latino-americanas e etc. Não foi de graça que o CMI atraiu o ódio de segmentos fundamentalistas do cristianismo.
No último dia 19 de Julho, portanto poucos dias antes da Marcha Para Jesus, a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo- Catedral Evangélica- recebeu a presença oficial do secretário-geral do CMI, o luterano norueguês Olav Fykse Tveit. Por ocasião, foi celebrada a repatriação de documentos ligados ao projeto Brasil Nunca Mais, que consistem em mais de 7000 páginas de documentos que estavam salvaguardados na sede do CMI, em Genebra, desde a década de 1980 e que são relacionados à preservação e à revelação da memória das violações dos Direitos Humanos protagonizadas pela ditadura militar no país. Esses importantes líderes não estiveram entre os eminentes líderes da Marcha Para Jesus.
Sem uma real comunhão eclesiástica e luta pela justiça não há real ecumenismo. Dessa forma, por mais que a Marcha tenha colocado cerca de dois milhões de pessoas nas ruas de SP, não pode ser considerada como uma “celebração de unidade cristã”, mas reflete o interesse de um determinado grupo capaz de manipular, infelizmente, a grande maioria do povo evangélico brasileiro.

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