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"...Enquanto ensinarmos que o mundo é um lugar a ser evitado, que as mazelas humanas são fruto da ausência de Deus, que Deus não ouve os pecadores, que só a igreja evangélica é que detém os "diretos autorais" da salvação, que ser forte e inabalável é sinônimo de fé e que ser pecador é ser inimigo de Deus então ainda não entendemos o plano da salvação e o evangelho de cristo rebaixado apenas á mais uma religião...."
"Sequencia de vídeos diários com a leitura do Novo Testamento"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Qualquer semelhança NÃO é mera coincidência



Beto era um jovem feliz, com um sorriso jovial e simpático, fazia amizades com muita facilidade. Usava cabelos com gel cola e a barba sempre por fazer. Fazia questão de se vestir bem com as roupas da moda e descoladas. Ganhava um bom salário e algumas meninas o achavam um bom partido.
Vez por outra tomava uma cerveja com os amigos no happy hour numa sexta feira qualquer, nunca exagerou na bebida nem nas baladas. Era considerado um cara responsável.

Como tinha muitos amigos, periodicamente,  era convidado por um amigo de infância, chamado Lucas, que era crente e não tinha tantos amigos, a ir ao culto de jovens aos sábados à noite. Sempre desconversava, arranjava uma desculpa e deixava para o  sábado seguinte. Lucas foi seu amigo desde pequeno. Estudaram na mesma escola, se apaixonaram pela mesma garota e quando crianças fizeram planos para quando crescessem: Ele queria ser bombeiro por causa dos caminhões cheio de luzes e mangueiras d’agua, e Lucas queria ser lixeiro. Ele adorava as roupas que brilhavam no escuro que os lixeiros usavam.

Mas assim como toda amizade infância o tempo foi mais forte que os laços da amizade e acabaram se afastando, cresceram, criaram barba, engrossaram a voz e se formaram; mas sempre mantiveram contato um com outro. Trocavam emails, scraps, twitts e qualquer outra forma de interação que se inventasse na internet. Sempre se telefonavam e pelo menos duas vezes por mês se encontravam.

Beto cresceu com Lucas que era de uma família cristã de uma igreja que ele não lembrava a denominação, apenas que tinha o nome parecido com “Apostólica Jeová Girá” ou algo semelhante. Não sabia o que significava aquela frase, achava os nomes das igrejas muito compridos e com termos que a maioria da sociedade desconhecia, como um linguajar próprio dos cristãos que não se importavam com quem passasse e lesse o nome da igreja, uma espécie de gíria gospel.

Como eram amigos de infância e sempre se esquivava de ir á igreja com o amigo, acabou cancelando a baladinha de sábado à noite para acompanhar Lucas á igreja, com esperanças de que, fazendo isso, os convites cessariam.

Chegou sábado a noite Beto colocou seu jeans rasgado, mas na moda, passou gel e deixou, como sempre, a barba por fazer.
Ao chegar, Lucas alegre e satisfeito com o amigo, o apresentou para os amigos da igreja dizendo que ele era alguém legal  e incentivando uma amizade  com o pessoal.
Como Beto usava calças rasgadas e um cabelo que chamava muito a atenção, foi surpreendido por um rapaz que deu boas vindas e, olhando para suas roupas e cabelos, o convidou a conhecer Paulo, que era ex viciado em drogas, achando que sua experiência lhe pudesse ser útil. Beto não entendeu muito bem o tom da conversa e logo disse com um sorriso tímido: “Não amigo, eu não sou viciado”.

Conheceu vários jovens que tentaram ser gentis, mas forçadamente construir uma amizade de infância em cinco minutos. Ele teve a impressão de ter reconhecido um jovem da igreja como uma pessoa que o xingou e gritou com ele por causa de uma vaga de estacionamento do shopping, mas achou estar enganado afinal era impossível aquele troglodita violento ser esse mesmo cara agora calmo e atencioso a sua frente.
Fizeram questão que ele se sentasse no primeiro banco da igreja e pediram pra ele preencher uma ficha com endereço, telefone e algumas outras perguntas como: “É a primeira vez numa igreja evangélica?”.

Logo começou o culto. O período de musicas foi muito agitado com gritos, pulos e garotas rebolando sensualmente, por alguns minutos achou que estava na balada que ele tinha cancelado invés de uma igreja. Curtiu bastante.
Logo após as músicas “agitadas”  o rapaz que cantava, pediu pra todos fecharem os olhos e pediu para que pensassem em Deus, o grupo começou a tocar e cantar uma espécie de mantra que lembrava outras religiões, mas que o acabou emocionando e fez deixar cair uma lágrima. Lucas olhou de rabo de olho e ficou feliz pois seu amigo estava sentindo “a presença de Deus”. 

Terminado o louvor, Beto não entendeu muito bem os vinte minutos que se seguiram, alguém estava insinuando há vários minutos que para se conseguir as coisas que ele já possuía como carro, um bom emprego e saúde, era necessário doar uma boa quantia em dinheiro pra que as “janelas dos céus fossem abertas”. Ele só não compreendeu como ele já tinha todas essas coisas mesmo sem nunca ter doado um tostão sequer. Tirou vinte reais da carteira e colocou na sacolinha, mas não entendeu muito bem a história dos gafanhotos e da tal da semeadura. Logo lembrou que mesmo estudando na mesma escola que ele, e fazendo doações para a igreja, Lucas nunca conseguiu comprar nada além de uma bicicleta de dezoito marchas nem ficar mais de um ano no mesmo emprego.

Apesar da neblina mental ele estava gostando da missa, quer dizer.... culto.
Depois disso o grupo musical subiu novamente ao palco e cantou uma música muito legal cheia de coreografias que todos da igreja já conheciam. Mesmo sem levar muito jeito para a dança foi constrangido pelos novos amigos a seguir os passos da música, não era muito difícil era só dar passos para direita, para esquerda, para frente e para trás; e no final girava cantando “por todo lado....”.

O culto seguiu, e com ele mais quinze minutos em que ficou boiando em meio aos recados que o pastor dava. Eram diversas informações que iam desde a escolha da cor do novo uniforme dos oficiais da igreja, até a acusação de vizinhos da igreja que estavam, segundo o pastor, sendo usados pelo diabo e que formularam uma queixa na justiça pelo excesso de barulho da igreja até altas horas da noite. Era preciso exterminá-los, mas com muito amor.

O pastor deu início na mensagem faltando dez minutos para a hora do fim da reunião. Beto pensou que ele iria falar por dez minutos, mas falou cerca de uma hora.
No início da mensagem o pastor leu, e todos puderam acompanhar pelo telão, um texto bíblico que contava a famosa e velha história de Davi e Golias. Ele falou sobre coragem, fé e determinação. Por falar em determinação, ele percebeu que a mensagem era similar aos da reunião da seicho-no-ie que ele freqüentou quando namorava uma garota de lá e viu que eles igualmente usavam muito a confissão positiva e reeducação mental. Achou muito bonito, mas ele ia ficando cada vez mais constrangido e, conseqüentemente, irritado a cada vez o que o pastor mandava as pessoas se virarem para o lado e repetirem uma frase triunfalista para a pessoa que estava sentada ao lado. Isso o irritava. Ele até repetiu as primeiras dez frases, mas depois desistiu e passou a não mais olhar para o lado.

A mensagem do pastor estava, ao seu ver, boa, o problema é que a cada trinta segundos a voz do pastor era encoberta por alguém gritando: “Glória a Deus” ou “Aleluuuuia!”. Beto achou isso uma falta de respeito. 
O pastor disse que Deus nos ajudará a derrubar os Golias de nossas vidas. Se tiver algum inimigo tentando nos afrontar Deus irá destruí-los. Beto percebeu que o tom da mensagem era em nível humano e não espiritual e essa suspeita se concretizou quando o pastor exemplificou que se temos alguém nos perseguindo no trabalho ou na escola é só clamarmos a Deus e se a pessoa não parar de nos perseguir, a mão de Deus pesará sobre ela, horrenda coisa é cair nas mãos do Deus todo poderoso. A imagem de um Deus sádico e louco por sangue era pintada vagarosamente pelo pastor a cada exemplo equivocado.
Depois de cinqüenta minutos de mensagem Beto começou a se perguntar como aquela igreja poderia ser considerada cristã se até aquele momento ele não ouviu nenhuma vez sequer no nome de Jesus Cristo. Não era a crença em Jesus que fazia daquela igreja cristã?
Ele ouviu os nomes de Davi, Golias, Saul, Jonatas; até Pedro e Paulo, mas não se lembra do nome de Jesus ter sido mencionado mais que um par de vezes. Lembrou-se que nas missas que ia com uma tia na igreja católica,  Jesus e Maria eram os únicos citados e Jesus parecia ter mais evidência na homilia do padre do que na mensagem do pastor.

Jesus veio aparecer no final da mensagem quando o pastor perguntou se alguém queria aceitar a Jesus naquela noite. Disse que se alguém assim o fizesse iriam derrubar os gigantes e vencer os inimigos  como Davi fez. E como o pastor ficou insistindo muito e olhando para ele no primeiro banco da igreja, ele resolveu levantar a mão, queria acelerar o final do culto, além de ele crer em Jesus e não estaria cometendo nenhuma mentira, afinal, mesmo antes de vir a igreja evangélica ele já acreditava em Jesus como filho de Deus, e talvez esse “aceitar a Jesus” seria apenas um ritual evangélico para aquilo que ele já acreditava.

Ao levantar a mão uma gritaria generalizada irrompeu eram “Glória a Deus” e “Aleluia”  sem fim. O pastor disse que existia uma festa no céu naquele momento e que agora o nome dele estava inscrito no livro de Deus. Ele estava muito confuso e igualmente feliz, recebeu vários abraços dos jovens da igreja, nunca tinha se sentido tão amado, não era comum ver homens se abraçando, normalmente isso soava meio gay, mas lá na igreja o abraço de amizade e apoio, mesmo de outros homens, era sem malícia. Isso o deixou muito contente.
O pastor disse que agora ele fazia parte da família de Deus e que o pecado agora não teria mais domínio sobre ele. Beto não entendeu o que isso queria dizer.

O culto terminou uma hora depois do previsto. Seu amigo, Lucas, o apresentou ao pastor como o amigo de infância e disse que estava muito contente por ter ganho Beto para Cristo. O Pastor deu as boas vindas ao Beto, disse que agora era preciso perseverança e que agora seria necessário algumas atitudes como: participar dos trabalhos da igreja e da escola dominical que traria saúde para sua vida espiritual, que não faltasse aos cultos, que entrasse para a classe de batismo e participasse da reunião dos jovens, em cinco minutos o pastor encheu a agenda dele com afazeres sagrados que não sobrou nenhum dia na semana para a vida social normal. 

O Pastor disse ao Lucas que Beto agora era seu discípulo e que Lucas agora era discipulador dele; e o pastor seria a cobertura espiritual de ambos.
Beto disse que não  tinha tempo pra todos esses trabalhos, mas logo o pastor retrucou dizendo que agora ele precisava se manter longe do mundo para evitar cair em tentação e que somente dentro da igreja ele estaria protegido do terrível mundo.

Beto acabou se acostumando a igreja e freqüentava periodicamente incentivado pelo seu amigo Lucas.

Beto não sabia direito o que era mundo, mas em alguns meses descobriu que quando o pessoal da igreja se referia ao mundo estava se referindo às músicas que não fossem gospel, às amizades que não fossem da igreja, às festas que não fossem da igreja ou de alguém de lá, aos passeios que não fossem organizados por eles e toda qualquer outra coisa que não tivesse alguma relação com a igreja, ou que fosse freqüentado por pecadores, era considerado Mundo e deveria ser evitado.
Na igreja era estimulado que não tivesse nenhuma amizade profunda com os "mundanos". Nada de amigos, somente colegas de escola ou trabalho; amigos só na igreja. Era também altamente recomendada (sujeito a punição) a inexistência do namoro entre mundanos e salvos.

Beto começou a detectar um tipo de fascismo dentro da igreja. Ele conhecia a oração do pai nosso e achava que quando oramos “venha o teu reino” estaríamos pedindo para que o reino de Deus viesse do céu  e se acoplasse ao nosso sistema e à nossa cultura; e não que deveríamos extirpar o mundo de nosso meio como um arquiinimigo. 

Beto também percebeu na igreja a principal característica de qualquer religião no mundo: A distinção entre santo e profano, e as formas de agradar ou desagradar a divindade adorada.
Percebeu que algumas músicas muito bonitas que ele gostava, algumas claramente inspiradas por Deus, agora se encontravam no grupo das profanas. Se uma música não fala sobre Deus ou salvação, também é profana, o interessante e que ele via músicas assim dentro da igreja, mas como eram gravadas por grupos gospel então eram consideradas santas.

Beto foi incentivado, com veemência, a jogar fora toda sua coleção de Vinil e CDs antigos, alguns históricos e muito valiosos, também iria precisar jogar fora seus livros do Harry Potter, Paulo Coelho, e qualquer outro que não fosse de um autor cristão. Mesmo que o conteúdo de auto ajuda fosse idêntico. Seus discipuladores alegavam que aquilo não era de Deus e que abria uma brecha e dava base legal para o  diabo agir na vida dele. Mas aquilo era muito estranho, afinal ele tinha esses objetos há anos e sempre conseguiu vencer na vida. E, se ter bens, paz e saúde eram sinônimos de bênçãos então ele era mais abençoado que qualquer um naquela igreja, mesmo com todos esses objetos profanos em casa.

A salvação pela graça estava perdendo espaço para a necessidade de conhecer e saber manipular leis espirituais. Beto aprendeu que se você conhecer as leis espirituais poderá liberar ou reter qualquer coisa que quiser. Mas Deus nesse cenário fica em segundo ou terceiro plano, pensou! Além disso, isso soa como se o homem tivesse duas vidas: uma carnal e uma espiritual- que teria mais poder e influencia na vida carnal. Isso não seria a mesma base das religiões meta físicas? Tudo estava ficando tão confuso!

Um dia a mulher do pastor estava conversando com ele sobre sua história e vida. Foi quando Beto revelou que seu avô faleceu em decorrência de diabetes e seu pai também lutava contra a doença há anos. A pastora não pensou duas vezes e soltou a sentença como uma bomba: “Isso é maldição hereditária”.  O que??? Disse ele.

A pastora explicou que isso se chama maldição hereditária e que passa de pai para filho até que uma geração quebre essa maldição, senão ela se perpetua. Beto perguntou se isso não era quebrado automaticamente quando recebemos Jesus, mas a pastora disse que não, que eram necessários pelo menos sete seções de quebra de maldição, de preferência com ofertas e jejuns.
Como Beto, devido ao trabalho, não tinha tempo para frequentar as reuniões de quebra de maldição durante a semana, decidiu ficar amaldiçoado mesmo, pelo menos até chegarem as férias de fim de ano quando ele teria tempo de participar das reuniões. Mas a maldição o acompanharia por alguns meses: ela à sua esquerda e Jesus à direita, ambos dividindo sua vida. Estranho não!?

Se não bastasse isso, como Lucas era seu amigo de infância e, agora, discipulador, Beto não tinha muitas reservas ao conversar com ele. Um dia numa dessas conversas Beto confessou que sentia uma mágoa da mãe e que as vezes chorava quando se lembrava do que sua mãe fez quando ele tinha seis ou sete anos. Ela abandonou a família para ficar com um antigo amor de infância e na loucura da paixão abandonou o marido e os filhos e embarcou nessa aventura. Isso durou um longo e triste ano. Depois de um ano sua mãe voltou arrependida e para felicidade de toda a família seu pai a perdoou e a recebeu de volta, mas o casamento deles nunca mais foi o mesmo.
Beto confessou que sempre que se lembra do ano em que ficou sem a mãe, no momento em que mais precisava dela, ele ficava muito triste e chorava.
Lucas, como um discipulador já treinado, deu o veredito que aprendeu na igreja: “Feridas na alma”. “Você precisa curar essas feridas interiores Beto, precisa se livrar disso” – exclamou.  

Lucas disse a Beto que ele precisava participar de algumas reuniões chamadas de cura interior, que isso faria bem e o libertaria do trauma da infância. Como não tinha tempo pra ir à igreja durante a semana, Lucas conseguiu que o auxiliar do pastor, o missionário Alberto viesse até sua casa nas horas que ele pudesse.
Alberto, um senhor gordo, sério, com cabelos brancos e uma voz grossa, era conhecido na igreja como missionário Alberto, mesmo sem nunca ter saído da cidade para pregar o evangelho, ainda sim era considerado missionário. Era aposentado e estava sempre disponível para essas “horas extras” que o reino de Deus precisava.

Beto aceitou o convite e pensou que aquela tal de cura interior era ainda mais importante que a quebra de maldição que ele precisava fazer. Marcou um horário com Alberto e se preparou. Beto como sempre era muito fiel. Contribuía com o trabalho e acreditava em tudo, apesar das dúvidas.
O missionário chegou pontualmente á casa de Beto e indagou: “Filho, você está preparado?”. Beto pensou em responder Não, mas disse: “Sim, seja o que Deus quiser!”
A casa de Beto era muito grande e com vários quartos e salas disponíveis. Escolheram o quarto menos usado na casa e começaram. Alberto fez uma longa oração inicial e cantaram uma música que dizia “Liberta-nos, pra te adorar...”.

Depois da música Alberto pediu para que Beto se deitasse e esvaziasse a mente, colocou um cd com uma música gospel tranqüila de fundo e apagou as luzes do quarto que ficou iluminado apenas com a luz que vinha do corredor. Pediu pra ele trazer a memória a época em que tinha seis anos, se esquecer do dia-a-dia e pensar apenas no dia em que sua mãe foi embora. Perguntou qual é o sentimento que tinha e que atitudes tomou naquela data. Beto disse que chorou a noite inteira e que ouviu seu pai pedindo a Deus forças e perguntando a Deus porque aquilo estava acontecendo. 

Alberto disse para Beto dizer aquilo que queria ter dito para sua mãe naquela época mas que não tinha idade para entender e falar o que a situação pedia.
Beto começou a chorar muito e a gritar: “Mãe nós te amamos, não vá embora. Precisamos de você... Nossa força e alegria de viver está em você, por favor não nos abandone. Pai não deixe a mãe ir embora, eu prometo que vou ser mais obediente, fala pra ela Pai!”

Beto estava falando com se tivesse voltado no tempo e estivesse revivendo todo o episódio. Alberto, que já tinha feito esse tipo de coisa dezenas de vezes, disse que esse foi o ponto inicial da ferida e que precisaria tratar aquele ponto. Disse a Beto que ele precisava perdoar sua mãe por ela o ter abandonado e precisava dar mais destaque e atenção ao fato de ela ter se arrependido e voltado para a família e reiterou que precisava haver perdão genuíno.

No final da sessão Beto agradeceu ao missionário que se colocou a disposição para fazer aquilo quantas vezes fossem necessárias. Nos dias que se seguiram Beto estava bem melhor e já conversava mais abertamente com a mãe. Mas depois de algum tempo tudo voltou como era e ao lembrar do fato Beto chorava muito. Ele percebeu então que ele já tinha perdoado a mãe e que a amava muito, conversava com ela normalmente e o único problema é que chorava quando se lembrava do acontecido. Acabou aprendendo que não precisava de cura interior -  que no fundo nem adiantou -  mas que precisava, com a ajuda de Deus, aprender a conviver com as duras lembranças do passado que o acompanharão até o fim de sua vida. Pediu a Deus que lhe desse forças para não sucumbir ante as lembranças de algo que já passou e que terminou bem. 

Como Lucas sabia que Beto ainda tinha problema com isso disse que seriam necessárias pelo menos mais umas cinco sessões com o missionário Alberto. Beto agradeceu e disse que não era mais necessário, que Deus o ajudaria quando fosse necessário e não queria nenhum tipo de lavagem mental, apenas forças e fé para viver o futuro sem ser impedido pelo passado, afinal a bíblia nos ensina a nos esquecermos das coisas que para trás ficam.  Lucas não concordou e disse que ele ainda continuava com a ferida na alma.

Beto estava prestes a começar a ajudar nos trabalhos oficiais da igreja quando começou a namorar uma garota simpática e decente, mas de uma religião diferente. Como já foi ensinado, isso era informalmente proibido e ele acabou sendo deixado de lado esquecido como uma pessoa disponível para ajudar aos trabalhos da igreja. Além disso ele tinha outros agravantes como ainda não ter terminado a cura interior e ainda nem ter começado a quebra de maldição que ele precisava. Mais ainda sim ajudava algumas vezes varrendo a igreja ou cuidando das crianças no horário do culto.

Beto e sua namorada sempre saiam de carro, iam ao cinema, teatro e as vezes á algum show de algum artista que sua namorada gostava. Foi num desses shows que Beto e sua namorada apareceram na TV já que o show estava sendo televisionado, e por uma má sorte eles foram filmados bem na hora em que o pastor trocava de canal na TV e viu os dois abraçadinhos cantando uma música de amor profana, e ainda na TV. 

O pastor ficou preocupado se mais alguém da igreja teria visto o casal de pombinhos abraçados ao som do satã. Disse que aquilo era inadmissível e como ficaria a reputação da sua igreja ao dar acesso ao altar à pessoas que se contaminam com o mundo e depois querem contaminar a igreja. Ficou preocupado sobre o que os outros pastores do conselho da cidade, onde pleiteava uma promoção a Bispo,  iriam pensar dele: que ele era um frouxo, que não disciplinava suas ovelhas, que a igreja dele seria chamada de “porta larga”.

No decorrer da semana ficou ensaiando o que falaria ao Beto, afinal de contas ele já sabe muito bem o que é certo e o que é errado. Beto como sempre chegou bem antes do culto para varrer o palco que eles chamavam de altar e ver se a classe das crianças precisaria de voluntários no dia. Quando foi pegar a vassoura o pastor disse: “Beto, larga isso, você não está em condições de fazer nada na casa de Deus, só gente santa pode subir nesse altar. Venha ao meu gabinete agora, precisamos conversar.”
Beto não entendendo o que aconteceu foi achando que se tratava de algum engano.

Ao entrar no gabinete pastoral o pastor nem esperou ele fechar a porta e já disse que estava ciente das coisas erradas que ele estava fazendo e que não permitiria que ele contaminasse o templo e que a partir de agora ele estava proibido de exercer qualquer ação dentro da igreja, nem sequer pegar a vassoura ele poderia mais. Disse que não mais ajudasse em nada e ficaria de banco por alguns meses, seria usado como exemplo a quem se deixasse contaminar pelo mundo.
Beto perguntou o que tinha feito de errado.

-Você anda se contaminando com as coisas do mundo, indo em lugares que um cristão não deve estar e falando com pessoas que não são santas. Nunca leu que não devemos nos ajuntar a roda dos escarnecedores?

-Mas pastor eu estava com minha namorada, só fomos passear e ouvir músicas, a propósito as músicas daquele grupo são muito bonitas!
- Musicas bonitas são só as músicas evangélicas, aquelas que você escuta são inspiradas pelo diabo. Não posso deixar que alguém que participa de uma reunião de pessoas que não estejam no propósito de adorar a Deus, trabalhe em minha igreja, você esta doente e não pode servir.

- Pastor a igreja não é sua é de Deus, e a bíblia não diz que são os doentes que precisam realmente de médicos?

-Aqui quem manda sou eu, tenho essa igreja há trinta anos e não vou deixar que um garoto recém convertido tente me corrigir citando a bíblia pra mim.  Tenho analisado suas atitudes desde  dia em que você entrou nessa igreja e vejo que você nunca se adaptou as regras, quer viver como se ainda estivesse no mundo.

- Mas pastor... eu estou no mundo. Só sairei dele quando morrer!

-Você vive sem mudança de vida, até hoje não foi batizado com o espírito santo, ainda usa esse cabelo de maluco, essas calças rasgadas, ainda escuta esses Cds inspirados pelo diabo , namora com uma garota não cristã, precisa de cura interior e ainda tem maldição hereditária não quebrada. Você precisa se converter, se tornar em ovelha e deixar de ser lobo. Além do mais nunca vi seu nome inscrito no livro de dizimistas da igreja. Você está roubando a Deus, os gafanhotos vão te pegar e se morrer você sabe pra onde vão os ladrões né?

Beto saiu da reunião confuso não reconhecendo os ensinos de cristo nas palavras do pastor. Estava proibido de fazer aquilo que, apesar de simples, o deixava satisfeito. Sempre agiu como um cristão deveria agir, apesar das roupas ou da cultura musical, lembrou das palavras de Jesus que disse que nem todo que o chama de Senhor entrará no reino dos céu, lembrou também da importância excessiva que as pessoas  dão para a igreja e para as coisas relacionadas a ela, mas Jesus disse que a adoração é em espírito e que Ele não habita em templos. 

Beto também teve uma triste lembrança. Lembrou-se de quando ainda não estava na igreja, como tinha mais amigos, menos obrigações ritualistas, tinha tempo para os amigos e família. Teve uma estranha sensação de que era mais feliz fora da igreja, não tinha um fardo enorme para levar, não tinha uma aparência de santidade para manter intacta, escutava suas músicas sem acusação e o pior: Ele só descobriu que era maldito depois que entrou para a igreja, ele só descobriu que era assolado por gafanhotos do inferno depois da conversão e só soube que o diabo tinha base legal pra agir na vida dele depois que entregou a vida pra Jesus.

A igreja fez dele um pobre coitado, sempre buscando por bênçãos, insaciável, sempre precisando de vitória, sempre ingressando em campanhas. Um miserável insatisfeito com o que tem, correndo incessantemente atrás da vitória  sem saber realmente o que se está buscando. Correndo como quem corre atrás do vento, eternamente buscando glória e satisfação egoísta como um cego buscando num quarto escuro um gato preto que não está lá.

Termos do tipo: maldição, opróbrio, doença na alma, assolação, gafanhotos devoradores, roubo, brecha, legalidade, leis espirituais, batalha espiritual, cobertura espiritual, cura interior, profanação e sacrifício,  são sintomas de uma doença que ele só contraiu depois de ingressar numa igreja cristã atual.


Continua.....
Sola Gratia
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